17/12/2009

Editorial n' O BASTO (20 de Dezembro de 2009)


vox populi vox dei

No final do mês de Novembro a fuga de um pároco de Celorico de Basto tornou-se um evento noticiado e reportado nos principais meios de comunicação deste país. Causa: uma suposta história de amor shakespeariano. A paixão, a intriga, o choque social e a negação das famílias ao amor incontrolável e incompreendido foram os principais ingredientes desta história. De um lado a família da jovem, do outro lado a grande e poderosa família católica -família adoptiva do jovem. Ambas negaram o consentimento ao amor: uma por opção e a outra por zelo à norma do celibato. Vincaram a sua decisão contrariando algo tão lúcido e atómico que é a indiferença do conceito «amor» às leis e às crenças dos Homens. Perderam ambas, como seria de esperar.
Não é algo novo em Terras de Basto. Houve, provavelmente há e haverá histórias com ingredientes e personagens semelhantes. No entanto, as reacções populares foram interessantes. A «vox populi» é um excelente "medidor" social. Permite que determinemos, embora com um erro de aproximação considerável, o estado da «mentalidade colectiva» das nossas gentes . Vejamos, nas reacções imediatas houve populares que apelidaram de «escândalo» o acontecimento amoroso. Outros, que o apelidaram como «compreensível». Posições diferentes sobre um mesmo acontecimento. Mas, pelo menos não li nem ouvi qualquer comentário em contrário, ninguém questionou o que deveria ser questionado: a razão social para a fuga deste casal. Porque, com o pároco renegando à norma e a jovem entregando-se ao amor, não puderam comungar o amor deles na terra onde ambos viveram? Fica a questão porque a resposta é, infelizmente, óbvia demais para ser enunciada.

15/11/2009

Editorial n' O BASTO (20 de Novembro de 2009)


Qual será o interesse superior?

a) A SIC mostrou e tornou público um relatório, encomendado pela União Europeia, em que o Ministério do Ambiente e os institutos adjacentes que vergonhosamente guardaram em segredo. Em Julho deste ano um relatório foi entregue a estas entidades públicas. Contudo, o conteúdo deste relatório só em Novembro foi revelado, devido a uma reportagem da SIC.
O artigo em destaque nesta edição do jornal "O BASTO" revela o conteúdo e as circunstâncias que envolvem este relatório internacional sobre o nosso(?) «Programa Nacional de Barragens». As conclusões deste estudo não são favoráveis ao Estado Português e ao modo como este conduz o programa. Para clarificar, basta expor algumas conclusões do relatório:
1. Se Portugal construir todas as barragens que pretende, não será possível ao País cumprir a legislação europeia relativa à qualidade da água, o que poderá levar à aplicação de sanções contra Portugal a partir de 2015;
2. tendo em conta a relação custo/benefício, os especialistas europeus dizem que “não se compreende” a decisão do Governo sobre as barragens.
Estas conclusões vão em encontro às evidências divulgadas por vários movimentos e associações da sociedade civil.

b) O documentário "Pare, Escute e olhe", de Jorge Pelicano, foi agraciado com honrosos prémios cinematográficos. Para além da qualidade da realização, este documentário retrata com qualidade a causa que lhe está na origem. Expõe a história de desprezo e mentira em que a linha ferroviária do Tua tem sido sujeita pelos últimos (e actuais) governantes. Este documentário "desperta a consciência" que a linha ferroviária estreita em Portugal é, e foi, determinada como inviável por um nebuloso misto de interesses privados e de más decisões políticas. A Região de Basto não é alheia a este assunto, ante pelo contrário. Esta região sofre do mesmo mal que é retratado no documentário: más e irredutíveis decisões políticas. Os mesmos governantes que condenaram (e condenam) a alternativa ferroviária nas Terras de Basto, condenaram (e condenam) a linha do Tua. Cá, o assunto é escamoteado dos objectivos dos governantes locais. Há uma preferência por "ciclo-eco-pistas" de duvidosa atractividade. O "despertar da consciência" para a alternativa ferroviária tem de acontecer, a sociedade e a vontade política determinarão o quando.

Em conclusão:
O que os "especialistas" políticos e de empresas de produção de energia apregoavam sobre os benefícios e a "protecção" ambiental do «Programa Nacional de Barragens» não se ajusta ao relatório independente encomendado pela União Europeia. O que os "especialistas" políticos apregoavam no encerramento das linhas ferroviárias estreitas (como a linha ferroviária do Tâmega) não se ajusta à realidade da ferrovia em Espanha (nenhuma linha estreita foi fechada e é usada, com sucesso, como factor de desenvolvimento). A linha ferroviária e as barragens são temas em que a realidade interroga: qual será o interesse comum a comandar, o nosso ou o deles?

19/10/2009

Editorial n'O BASTO (20 de Outubro de 2009)


Actos Eleitorais

Findado o último acto eleitoral, à partida, sentimos-nos “politicamente” mais aliviados. Nada contra o momento alto do exercício democrático, que é o acto de eleger os nossos governantes e representantes. Pelo contrário. Porém, tudo o que envolve o acto eleitoral é, para mim, uma fonte metafórica de água sulfurosa. Bebe-se mas com moderação. Começando nas eleições europeias, em que se discutiu as legislativas, passando pelas eleições legislativas, em que se discutiu as escutas em Belém, até às eleições autárquicas, em que nada se discutiu, a política, o acto de determinar a arte de governar, se centrou no supérfluo e no “futebolisticamente” interessante. Nada de surpreendente. Já vivemos outros actos electivos.

Agora, como os resultados eleitorais demonstraram, continuaremos com as mesmas personagens mas em circunstâncias diferentes.

Ganhámos uns sacos, uns lápis, umas fitas métricas e uns acontecimentos pouco democráticos. A Democracia é isso. Um acto popular de eleição … de brindes. Quando é que perceberemos que só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e de decidir? Pois, a liberdade é extremamente relativa quando estamos “democraticamente” presos a algo ou a alguém. Enquanto isso, o sistema agradece e o povo obedece.

22/09/2009

Editorial n'O BASTO (20 de Setembro de 2009)



Apontamentos setembrinos

1. Neste mês algumas imagens, digamos, horripilantes, das estagnadas águas do rio Tâmega, presentes na Albufeira do Torrão em Amarante, foram bastante mediatizadas. Suficiente para que a Quercus efectuasse uma conferência de imprensa e exigisse, ao Ministério Público, uma investigação para apurar as responsabilidades institucionais dos diversos intervenientes públicos e privados na eutrofização daquelas águas. Um crime ambiental evidente, tanto pela acção directa do poluidor como da passividade criminosa das entidades responsáveis pela qualidade daquelas águas. A Quercus, também, instigou para que as populações de Celorico e Mondim de Basto fossem conhecer o estado degradante das estagnadas águas da albufeira do Torrão (consequência da barragem do Torrão) para terem uma visão futura do que poderá acontecer com a albufeira resultante da implementação da barragem de Fridão. Fica o aviso e o alerta para um futuro pouco “ambiental” para um projecto hidroeléctrico acarinhado por muitos dos políticos do Baixo Tâmega e renegado pela realidade.

2. Desde do final do mês de Agosto até ao presente mês de Setembro, os incêndios florestais têm fustigado as Terras de Basto de um modo como não se via desde 2005, um annus horribilis na destruição florestal. As causas são diversas, mas há uma que se sobrepõe às demais: o fogo posto. Por descuido, por falta de cultura ambiental e cívica, por interesse económico ou lúdico, por loucura ou por um qualquer estado maníaco parece quase certo que o factor humano seja dominante na génese dos incêndios florestais. Contudo, com muitas limitações, as corporações de bombeiros voluntários (um adjectivo que muita gente não quer entender) da nossa terra têm feito o possível para que as consequências desta calamidade sejam minoradas. Muitas vezes o combate às chamas é feito no limiar da resistência física e psicológica e tem como desfecho a incompreensão de populares. Pelo esforço e pelo voluntariado daqueles homens e mulheres a reacção popular deveria ser muito diferente daquela que domina nas diversas ocorrências de socorro. Enfim, mais um caso de falta de cultura cívica e bom senso.

3. Aproxima-se o dia do escrutínio para as eleições legislativas. Na esfera política e opinativa, o discurso tem-se centrado na hipótese em que as próximas eleições serão, mais uma vez, uma discussão a dois. José Sócrates e Manuela Ferreira Leite, PS e PSD são as duplas possíveis em muitas opiniões. Uma dualidade presente na maioria dos trinta e cinco anos em Democracia, portanto uma dualidade responsável pelo estado actual do País e da população – para o bom e para o mau. Convém referir que vivemos numa democracia multipartidária e que todos os partidos apresentam ideias e soluções hipoteticamente tão válidas como os “gémeos” PS e PSD. Centralizar o discurso numa opção entre estes dois partidos é desviar-nos do fundamental desta eleição. Ou seja, é desviar-nos de uma verdadeira alternativa governativa porque, a grosso modo, PS e PSD (com o acessório CDS-PP) têm nos governado não alternativamente mas sim continuamente. Portanto, a conclusão é simples: centralizar o discurso nestes dois partidos é centralizar, substancialmente, a discussão política na mesma política governativa.

20/08/2009

Editorial n'O BASTO (20 de Agosto de 2009)


Para quando o comboio do progresso?

Durante este mês a estação televisiva SIC passou uma reportagem (intitulada de “Fim de Linha”) sobre os comboios de linha estreita em Espanha e em Portugal. Em jeito comparativo, a reportagem expunha as diferenças entre o tratamento dado a estas linhas com características próximas das portuguesas. As linhas ferroviárias estreitas espanholas situam-se no interior, em zonas predominantemente montanhosas, abrangendo zonas despovoadas e isoladas geograficamente. No entanto, em Espanha, estas linhas centenárias não foram deixadas ao abandono. Foram totalmente modernizadas (retomando até, com os devidos melhoramentos, vias anteriormente encerradas) e tornaram-se economicamente sustentáveis produzindo-se como um factor de progresso nas terras onde atravessa. Estas linhas estreitas (como a linha do Tâmega), em Espanha, foram modernizadas de forma a servirem o transporte de passageiros, mercadoria e o turismo. Poderemos afirmar com segurança que o investimento neste tipo de vias foi (e está a ser) um sucesso.

Em Portugal, foram encerradas, nos últimos anos, 500 km de linha ferroviária em contraponto com a realidade espanhola. Na nossa realidade temos a linha do Tâmega (encerrada à cerca de 29 anos em troca de umas benesses como a via rodoviária do Tâmega que ainda não está completa) com características topográficas semelhantes às terras onde a linha estreita espanhola existe. Porém, o estado da nossa linha é totalmente diferente da similar linha estreita espanhola. Enquanto, na realidade espanhola, os políticos decidiram renovar e modernizar a linha, aqui, encerraram-na e abandonaram-na. Enquanto, na realidade espanhola, existe um serviço de transporte de passageiros e mercadorias (com a valência turística) moderno e ecológico, aqui, nas Terras de Basto, temos um serviço de transporte rodoviário insuficiente, caro e poluidor que atravessa as, menos boas, estradas municipais e nacionais ou a caríssima auto-estrada número sete.

Todavia, a restante linha do Tâmega (que se salvou da má visão estratégica dos políticos) está em obras de renovação (entre a Livração e Amarante). Invés de se incentivar a reabertura da restante linha do Tâmega (aproveitando agora a intenção de renovar a ferrovia entre Livração e Amarante) os políticos preferem transformar a encerrada linha ferroviária do Tâmega numa “ciclo-eco-pista” , alcatroando-a. A “ciclo-eco-pista” entre Guimarães e Fafe (num extinto troço da linha do Tâmega) existe e está, tal como a ferrovia cá em Basto, abandonada e vandalizada. Contudo, este contra-exemplo não serve para esclarecer a maioria dos políticos de Basto que continuam a pensar que o projecto “ciclo-eco-pista” para a linha do Tâmega nesta região é um factor de desenvolvimento e progresso.

Editorial n'O BASTO (20 de Julho de 2009)





Já se ouve o prelúdio das eleições autárquicas para a Região de Basto. Algumas listas de candidatos já são conhecidas enquanto outras se preparam.

Seria interessante que, quando acabasse os jogos dos nomes e lugares, estas forças políticas se pronunciassem, programaticamente, sobre certos assuntos comuns a todos os que vivem nestas Terras.

Em concreto, é essencial que se ouça e veja o que estas forças e estas pessoas propõem como resolução sobre várias questões. Por exemplo, o que têm a dizer sobre

a problemática das Barragens na região, a desertificação populacional, o problema do isolamento (comunicacional) entre instituições dos concelhos de Basto, sobre a inacabada via do Tâmega, sobre a (exterminada) linha ferroviária do Tâmega, sobre a alta taxa de desemprego e imigração, sobre a (falta) de diversidade do tecido económico, sobre o exíguo sector produtivo nas Terras Basto, sobre a falta de uma estratégia turística e económica comum, sobre a falta de uma política educação para Basto, sobre políticas sociais, sobre o excessivo peso da Autarquia e dos seus postos de emprego na sociedade de Basto, sobre a instrumentalização (que se sente e se vive) da sociedade pelo "poder" de Basto, enfim coisas chatas que o povo gostaria realmente de saber e ver em “programa eleitoral”.

26/06/2009

Editorial n' O BASTO (20 de Junho de 2009)



"Pastores"


O (novo) regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário veio estender a Escola pública à comunidade em que ela se insere, ou seja, este regime foi estabelecido com o objectivo de reforçar a participação da comunidade na direcção da Escola pública.


Um princípio bom e necessário. A “abertura” que abarca este regime, pressupõe a “entrada” de governantes locais nos desígnios da Escola. Em, grosso modo, a “entrada” destes funcionários da coisa pública (embora, saibamos que muitos não pensam e, pior, não ajam como tal) é algo essencial para o objectivo de “abrir” e “democratizar” a Escola.


No entanto, esta “abertura” escolar à comunidade atraiu de imediato a (má) intervenção política. Este regime decreta que o órgão colegial (o Conselho Geral) eleja o órgão unipessoal (o cargo de Director) e é neste importante passo administrativo que políticos sem escrúpulos tentam instrumentalizar a Escola escolhendo, através do seu voto no Conselho Geral e/ou influenciando (eufemismo) outros votos, não aquele que por mérito e crédito deve ser o Director mas sim aquele que mais se adapta, por simpatia ou por simples estratégia política, ao desejo do político.


Isto é uma traição ao conceito de Escola pública e um mau (e perigoso) uso de um regime jurídico que visa melhorar o serviço público prestado pelas Escolas.


Estas tentativas de instrumentalizar pessoas e instituições têm sido um modo de operação comum a muitos políticos e governantes nas Terras de Basto. É ridículo como, descaradamente, sem respeito e consideração (pelos instrumentalizados) estes políticos usam pessoas e instituições para fins políticos, partidários e pessoais. Algo é certo, se nada se fizer contra este tipo de acções e este tipo de políticos eles lá continuarão a agir do mesmo modo porque, aparentemente, escrúpulos não os têm e os resultados (os dividendos políticos) valem o ridículo.